quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Eu, o privilegiado


Por Edson Joel

- O senhor é um privilegiado!

A afirmação foi feita por uma jovem funcionária da TAM, dentro do ônibus que me conduzia pela pista do aeroporto de Congonhas, onde embarcaria para Marília. O avião era um Focker, asa alta e estava me aguardando. Dentro do ônibus apenas o motorista, ela e eu. Senti-me constrangido naquela momento. Um ônibus só pra mim era muito privilégio mesmo. 

Tinha sido um longo dia de trabalho em São Paulo e precisava retornar para minha sede, no interior, naquela noite. Tinha compromissos inadiáveis na manhã seguinte. Tomei um taxi rumo a Congonhas, desviamos do congestionamento e acabei chegando em cima da hora para tentar o embarque.

- Lamento, senhor! - disse a atendente, no balcão de passagens. Depois de muita insistência ela decidiu consultar o comandante, por telefone.

- A porta já subiu  e a aeronave está iniciando o procedimento de taxiamento para decolar, senhor. Lamento, mas não voará hoje - sentenciou a simpática funcionária.

Eu já estava pensando no plano bê quando o telefone tocou para a atendente e, pela sua reação, percebi que havia uma esperança de voar pra casa naquela noite.

- Ok, senhor. Vou emitir sua passagem. O comandante vai esperar.

Enquanto ela procedia a emissão eu pensava como encarar os passageiros hora que subisse à bordo. Imaginei a reação dos olhares fulminantes me condenando e adjetivos não verbalizados do tipo "bonitão da bala Chita, atrasadinho, irresponsável..." e, quiçá, alguns palavrões nada recomendáveis. De posse da passagem fiz o possível para alcançar o ônibus rapidamente. Estava atrasando o voo de muita gente.

A funcionária do ônibus sorriu e fez o comentário que me fez constranger. Preparei-me para comportar com humildade, quase como uma desculpa pelo atraso. Ao aproximar da aeronave, a escada desceu. Subi rapidamente, cumprimentando a aeromoça que carregava o irrecusável sorriso de boas vindas. Pedi desculpas e cumpri o ritual que já tinha planejado: entrar de cabeça baixa, evitar olhares dos passageiros, sentar-me nos últimos bancos e erguer a cabeça somente no meio do voo.

Assim foi. Entrei pelo corredor, pelos fundos, baixei os olhos e sentei-me na primeira poltrona. Afivelei o cinto e lá fiquei. Quieto. Silencioso, constrangido, humilde. Nunca antes isso me ocorrera.  "O senhor é um privilegiado" repicava na minha cabeça.

O avião começou a se mover para tomar a pista. Tomei coragem e arrisquei uma olhadinha pelo corredor. Tudo calmo. Muito calmo. Ergui a cabeça, estiquei o pescoço, olhando por cima das poltronas e nada. Nenhuma cabeça à vista. Eita, o que está ocorrendo?

Levantei-me e não vi ninguém, exceto as aeromoças. Cerrei as sobrancelhas e perguntei em voz alta: cadê todo mundo?

- Como todo mundo? - respondeu a aeromoça, reperguntando. O único passageiro é o senhor. Ninguém mais. O senhor é um privilegiado - repetiu a mesma frase da moça do ônibus.

- Eita! Dispenso todos os serviços e formalidades - sentenciei. Quero apenas um café, quando decolarmos. E chamem todos pra gente conversar aqui no fundão.

Contei pra elas do meu constrangimento de ter um ônibus só pra mim quando, de verdade, tinha um avião inteiro. Foi meu melhor voo. Voltei a cruzar com a tripulação muitas vezes e nos tratávamos como velhos amigos. Sabíamos da história de cada um. Tempo não nos faltou pra contar lorotas.