quinta-feira, 7 de março de 2024

Para 81% dos americanos, influenciador não agrega credibilidade ao produto.

Dos 1000 consumidores americanos pesquisados, 86% disseram ter mais confiança em marcas que publicam conteúdos gerados organicamente.

Por Edson Joel Hirano Kamakura de Souza

Um estudo realizado pela EnTribe aponta que 86% dos consumidores norte-americanos não confiam em influenciadores. "É a fadiga do influenciador", afirmou Adam Dornbusch, fundador e CEO da empresa. " Isso ocorre quando o público se cansa de conteúdos repetitivos e vazios" -disse. 

O levantamento abrangeu mil consumidores (entre 18 a 60 anos) e quis analisar a percepção deles comparando as marcas que usavam influenciadores versus conteúdos de marcas gerados organicamente. Essa pesquisa foi realizada em abril de 2023.

Os resultados são impressionantes: 86% dos entrevistados confessaram ter mais confiança em marcas que postam conteúdos gerados organicamente (User Generated Content). Destes, 81% afirmaram que os influenciadores não agregam credibilidade ao produto e, até mesmo, provocam impacto negativo à marca. Pouco mais da metade (51%) disse que ignora as postagens dos influenciadores. E apenas 12% preferiram comprar produtos promovidos por influenciadores.

A EnTribe afirma que 62% dos entrevistados jamais adquiriram um produto promovido por um influenciador, enquanto 42% dos que adquiriram um produto anunciado por eles, se arrependeram da compra.

A rejeição do consumidor americano: esse
desgaste está chegando ao Brasil.
Segundo a Consultoria Nielsen, de 2022, existiam no Brasil  mais de 10,5 milhões de "influencers" somente no Instagram, contra 13,5 milhões nos Estados Unidos. Dados apontam que 8 em cada 10 mulheres brasileiras, entre 16 e 30 anos, seguem algum influenciador.

Experiências amargas

Empresas que movimentam milhões, empregos, investimentos e vendas, inocentemente colocam sua marca consolidada em dezenas de anos de luta...nas mãos do marketing de influências e, as vezes, colhem péssimos resultados.

 A Bud Light, fabricada pela Budweiser, da AB Inbev, uma popular cerveja americana, teve queda nas vendas depois da campanha da marca estrelada na mídia digital por uma influenciadora trans, Dylan Mulvaney. O prejuízo chegou a US$ 400 milhões (R$ 1,95 bilhão) e queda na bolsa americana de US$ 5 milhões. Pior, a Bud Light, depois de 20 anos na liderança como mais vendida nos Estados Unidos, perdeu o posto para uma cerveja mexicana. Três meses após a campanha, a Budweiser demitiu 400 funcionários da cervejaria que sofreu queda de até 32% nas vendas.

A explosão de críticas viralizou. O grupo se desculpou, demitiu toda diretoria de marketing e lançou outra campanha ressalvando os valores americanos. Mas a imagem da Bud Light não melhorou.

Os pecuaristas brasileiros, por exemplo, não esquecem a campanha "Segunda sem Carne", patrocinada pelo Bradesco, com a aprovação da diretoria, que depois pediu desculpas diante da tempestade de críticas não apenas de pecuaristas. 

Influenciadores e seus "followers"

Influenciadora espanhola

Arianne Rene, com 2,6 milhões de seguidores no Instagram e 350.000 no Twitter, não conseguiu vender nem 252 camisetas com o seu design. O fabricante exigia um mínimo de 36 camisetas de cada um dos sete modelos que ela criou.

José Pablo García Báez, blogueiro profissional e jornalista espanhol, adverte que muitos influenciadores compram seguidores (followers) e os comentários nas suas postagens. E aponta: na Europa, 30.000 seguidores novos no Instagram custam 150 euros (R$ 807) e 200 comentários personalizados, pouco mais de 50 (R$ 269 reais). Na política brasileira é comum ver comentários repetidos, caracterizando compra. Os seguidores podem ser até reais, mas apenas recebem para seguir. É um follower profissional que fica em casa "postando comentários elogiosos" e curtindo publicações do seu influenciador.

O influenciador Jô Soares

Para muitos telespectadores de televisão, Jô Soares era considerado culto porque entrevistava muitos escritores no lançamento de seus livros. Jô era culto mas as entrevistas com cada autor eram pagas pela sua editora. Dependendo, uns 2 milhões de reais. Imagine que o autor pudesse vender - previsão - algo como 1.5 milhão e meio de livros por, digamos, R$ 45 cada. Porque a emissora de tv faria a entrevista de graça se a editora embolsará R$ 67 milhões?

Os micro influencers

Uma fabricante chinesa de smartphones teve um sucesso relativo quando levou a Paris centenas de jornalistas, blogueiros, youtubers, influencers e modelos de redes sociais para apresentar seu smartphone P30. Todos, com muitos seguidores mas nenhum conhecimento técnico para falar do produto ou comentar sua experiência com o aparelho. Gastou milhões.

No aposto, uma fabricante espanhola de camisetas abriu o mercado europeu utilizando micro influenciadores. A fabricante ignorou o número de seguidores mas prestou atenção na qualidade das suas publicações no Youtube e blogs e para qual público falavam. O responsável pela expansão da marca na Itália, disse que o segredo que multiplicou as vendas não foi o número de seguidores dos micro influenciadores, mas em “quem se esconde atrás deles”.

Fonte: EnTribe/Exame/El Pais