segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Alunos pretos e alunos pobres de Sobral sabem português e matemática tanto quanto seus colegas brancos e ricos


Ao se analisar o nível de proficiência das escolas de Sobral, nota-se  que o método fônico neutralizou, quase por completo, o desnível racial e sócio econômico.


Por Edson Joel Hirano Kamakura de Souza

Sobral, cidade cearense com 217 mil habitantes, lidera o ranking da educação no Brasil, de novo. Suas escolas municipais, em 2025, conquistaram as melhores notas do Ideb – Índice de Desenvolvimento do Ensino Básico - entre todas do país: 9,63 nos anos iniciais e 8,05 nos anos finais.

Enquanto Sobral lidera o ranking nacional, Marília ficou com 7.1, uma diferença de “apenas” 2,53. Mas esse gap pode levar mais de 63 anos para chegar aos 9,63 da cidade cearense se observarmos que o avanço de Marília no Ideb, nos últimos 15 anos, foi somente míseros 0,04, por ano.

EQUIDADE

Mais do que conquistar a liderança, Sobral neutralizou as diferenças tão comuns nas escolas brasileiras: o Ideb mostrou que alunos pretos tem proficiência idêntica aos seus colegas brancos da mesma sala. E mais: alunos pobres se superam e se equiparam com seus colegas ricos. Isso é possível quando se usa o método fônico, mesmo método utilizado em outras cidades cearenses e de outros estados, com sucesso.

PRA VOCÊ ENTENDER MELHOR

O ensino básico divide-se em dois períodos: do 1º ao 5º ano é chamado de anos iniciais e, do 6º ao 9º, anos finais. O Ideb é calculado com base no real aprendizado dos alunos em português e matemática e no fluxo escolar, isto é, na taxa de aprovação.

E a cada dois anos os desempenhos dos alunos do 5º e 9º anos são avaliados pelo Saeb- Sistema de Avaliação do Ensino Básico - gerando o Ideb que é o indicador oficial quanto a proficiência e evolução escolar dos estudantes de todo país.

SOBRAL X MARÍLIA

A comparação socioeducativa e econômica entre Sobral (CE) e Marília (SP) revela dois cenários bem diferentes: de um lado, um município do interior do Nordeste que se tornou a maior referência nacional em eficiência educacional e equidade; de outro, um próspero polo econômico e industrial do interior paulista, com alta qualidade de vida, mas que evolui lentamente no ensino básico.

Perfil Socioeconômico e Segurança

Marília possui um histórico de maior riqueza por habitante e melhor infraestrutura social geral (IDH). Sobral se destaca pela liderança na alfabetização e redução das desigualdades.


Indicador

Sobral (217 mil hab)

Marília (250 mil hab)

IDH Municipal (PNUD)

0,717 (Alto)

0,798 (Alto/Próximo a Muito Alto)

PIB Total (Aprox.)

R$ 6,5 Bilhões

R$ 12,5 Bilhões

PIB per capita

R$ 33,2 mil

R$ 52,6 mil

Violência

Índices mais elevados (Desafio comum a grandes centros urbanos do NE).

Índices moderados (Padrão do interior paulista, com oscilações recentes).

Nº Total de Alunos (Rede Pública)

~35.000 alunos

~20.000 alunos (Foco municipal em Anos Iniciais)

Nº Escolas Municipais

~80 instituições

~60 instituições



Evolução Histórica do Ideb (2010 – 2025)

No Ideb 2025, as duas cidades superaram as metas e médias nacionais. No entanto, Sobral opera em um patamar de excelência isolado, liderando o ranking nacional para cidades acima de 100 mil habitantes.

Anos Iniciais (1º ao 5º ano)

Sobral (CE): Saltou de 7,3 (em 2011) para impressionantes 9,63 em 2025. Isto é, avançou 2.33 pontos em 15 anos. É a rede pública municipal mais eficiente do país.

Marília (SP): Saltou de 6,5 (em 2011) para 7,1 em 2025, um lento avanço de 0,6 em 15 anos, isto é, 0,04 por ano.


Anos Finais (6º ao 9º ano)

Sobral (CE): Registrou um avanço histórico, atingindo a nota 8,05 em 2025 (superando os 7,9 obtidos em 2023).

Marília (SP): Dos 5,6 em 2011, Marília saltou para 6,0 em 2025.



Proficiência no Saeb (5º Ano) e o Fator Equidade

O grande diferencial evidenciado pelas pesquisas da plataforma QEdu diz respeito à equidade de aprendizagem (redução da distância de notas entre grupos vulneráveis e privilegiados).

Ao se analisar o nível de proficiência (Saeb - 5º Ano) das escolas de Sobral, considerando cor/raça, nota-se claramente que o método fônico mitigou, quase por completo, a barreira racial.

Em Sobral, alunos pretos e pardos alcançam proficiências em Língua Portuguesa e Matemática estatisticamente equivalentes às de alunos brancos.

Em Marília a diferença de proficiência, em favor de alunos brancos, persiste nas escolas básicas da cidade (que não usam o método fônico). O reflexo de desigualdades históricas de renda e moradia regional estão evidentes.

Divisão Socioeconômica: Pobres em níveis altos

Em Sobral: Mais de 90% dos alunos de famílias de baixa renda (Inseridos em vulnerabilidade socioeconômica) atingem o nível "Adequado" ou "Avançado" em proficiência. O background familiar impacta pouco o sucesso do estudante na escola.

Em Marília: Há um impacto visível do Nível Socioeconômico (NSE). Escolas localizadas em bairros periféricos de maior vulnerabilidade registram proficiências menores em matemática, comparadas às escolas centrais. 

Município

Grupo Racial

  Português

Matemática

Sobral (CE)

Alunos Brancos

  94%

92%

Sobral (CE)

Alunos Pretos

  93% (Diferença irrisória)

91% (Diferença irrisória)

Marília (SP)

Alunos Brancos

  83%

78%

Marília (SP)

Alunos Pretos

  68% (gap 15%)

59% (gap 19%)

Em Sobral, o abismo de aprendizado determinado pelo fator racial foi estatisticamente neutralizado. Em Marília, a distância de desempenho segue o padrão de desigualdade do restante do estado de São Paulo.

Método fônico de alfabetização.

O motor pedagógico que mudou o patamar de Sobral foi, fundamentalmente, a ruptura com o construtivismo/método global e a implementação da instrução fônica sistemática.
Várias cidades do Vale da Rapadura, no Ceará, adotaram o mesmo projeto de Sobral com sucesso. Quixeramobim também aderiu ao método fônico e tornou-se cidade que compete com as altas notas de Sobral.

Efeito do Método Fônico na Equidade: Como o método de Sobral decodifica a estrutura lógica do idioma, focando na consciência fonêmica, a escola neutraliza a desvantagem da criança vulnerável. O aluno, cuja família é de baixa renda ou de pais analfabetos, aprende no mesmo ritmo do aluno rico.