segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Guiados pela profecia

Revista Tupã, produzida em 2009
Por Edson Joel

Todas as pessoas que entraram no país a partir de 1822 - ano da independência - foram consideradas imigrantes e, anterior a isso, colonizadores. Depois do fim da escravidão e a proibição do tráfico, o movimento imigratório foi considerável alterando demográfica, cultural e economicamente o país. De lá até o ano 2000 foram mais de 6 milhões de imigrantes, a maioria em busca de novas oportunidades.

Da colonização pelos portugueses e escravos a partir de 1500, aos alemães no sul por volta de 1800, passando pela mão de obra de italianos, espanhois e japoneses e, mais tarde, sirios-libaneses no comércio mais recentemente e outros, o país se transformou.

O plantio do café no estado de São Paulo atraiu mão de obra de outros países já que os escravos vindos dos falidos engenhos do norte não eram mais utilizados por força de lei. Os japoneses começaram a chegar no Kassato Maru em 1908 e em regulares viagens nos anos seguintes. Mas a Constituinte de 1946 queria proibir a vinda de mais japoneses ao Brasil e votou uma emenda - do deputado carioca Miguel Couto Filho - que dizia: "É proibida a entrada no país de imigrantes japoneses de qualquer idade e procedência". O objetivo era promover o "branqueamento da população" impondo o fim da imigração dos "degenerados aborígenes nipões", os japoneses. A votação empatou em 99 a favor e 99 contra. O voto de desempate, do senador Fernando de Melo Viana, recusou a lei. Em 1902, já havia restrição a imigração subsidiada de italianos.

Capa da Revista Tupã, 2009
Um único movimento migratório, o dos letos, ocorreu por outro motivo que não o econômico: profecia.

Assustados com a chegada do grande Dragão Vermelho - o comunismo vindo de Moscou - os letos batistas começaram a chegar ao Brasil no final do século 19, na região sul guiados por essa profecia, em busca de liberdade. Em 1922 se acercavam de Tupã, na região chamada mais tarde de Varpa, hoje distrito, às margens do rio do Peixe. 

Um grupo preferiu viver em comunidade e fundou a Fazenda Palma, o mais completo modelo de socialismo cristão já vivido em terras brasileiras. Tudo que era produzido era consumido com igualdade entre os membros ou vendido e o dinheiro colocado numa caixa - literalmente uma caixa de madeira. Quando alguém necessitava, retirava da caixa o valor suficiente para as suas necessidades e, se houvesse troco, era devolvido na caixa. 

O refeitório era comum para todos e um sino - que ainda existe - anunciava as refeições. Uma gráfica produzia bíblias e o local já era dotado de energia elétrica em 1926. A professora Milia Tupis diz que "eles admiravam tudo aquilo e Palma era totalmente altruista e com raízes na fé". Hoje a Fazenda foi reaberta como ponto turístico. A professora leta, em seu depoimento para uma revista que produzi em 2009, concluiu: - Infelizmente um ideal não se passa por herança.

Tal lá como cá, o comunismo acabou.










Revista Tupã foi produzida em 2009 para a comemoração dos 80 anos da cidade
Produção Executiva: Maira Andréia de Souza Lopes
Pesquisas e Reportagens: Edson Joel, Marina dos Santos Taveira
Fotos: Matheus Pires
Editor: Edson Joel